Sumário
- O que é o empréstimo consignado e como funciona o desconto
- Qual o limite de desconto no salário em 2026 (margem consignável)
- E quando eu sou demitido? O que acontece com o consignado na rescisão
- A empresa ou o banco podem descontar o saldo devedor de uma vez só?
- O que diz o TST sobre o desconto do consignado na rescisão
- Pedi demissão e ainda devo o consignado. E agora?
- Posso autorizar um desconto acima do limite legal?
- Descontaram mais do que o permitido: o que fazer
- O consignado pode ser descontado do FGTS ou de verbas impenhoráveis?
- Consignado x outros descontos no salário: qual a diferença
- Exemplo prático: como fica o cálculo na rescisão
- 7 cuidados antes de contratar um consignado
- Perguntas frequentes
Você contratou um empréstimo consignado pensando que as parcelas seriam descontadas aos poucos, direto na folha de pagamento, sem pesar no bolso. Mas e se você for demitido antes de quitar a dívida? Muitos trabalhadores só descobrem o real impacto do consignado justamente na hora mais delicada: quando recebem (ou deixam de receber) o acerto da rescisão.
A boa notícia é que existe um limite legal para esses descontos, mesmo na rescisão. Neste guia você vai entender como funciona a margem consignável em 2026, o que a lei e o TST já decidiram sobre o desconto na rescisão, e o que fazer se a empresa ou o banco descontaram mais do que podiam.

O que é o empréstimo consignado e como funciona o desconto
O empréstimo consignado é uma modalidade de crédito em que as parcelas são descontadas diretamente do salário do trabalhador, antes mesmo de o dinheiro cair na conta.
Para o trabalhador CLT (empregado com carteira assinada), essa modalidade é regulada principalmente pela Lei 10.820/2003. Ela exige, entre outras coisas, que o empregado autorize expressamente o desconto em folha, geralmente por meio de um termo assinado no momento da contratação do empréstimo.
Como o desconto é automático, o consignado costuma ter juros menores do que outras modalidades de crédito. Mas essa comodidade tem um preço: se você perder o emprego, a forma de cobrança muda completamente.
Qual o limite de desconto no salário em 2026 (margem consignável)
A lei não permite que o banco ou a empresa comprometam todo o seu salário com descontos de empréstimo. Existe um teto, chamado de margem consignável.
Pela Lei 10.820/2003, com as alterações trazidas pela Lei 14.431/2022, a regra geral para o trabalhador CLT costuma ser apresentada assim:
- Até 30% da remuneração mensal para empréstimo consignado tradicional;
- Até 5% adicionais para cartão consignado ou consignado-benefício;
- Total combinado de até 35% do salário, conforme o instrumento coletivo e as condições pactuadas com o empregador.
Esses percentuais podem sofrer ajustes por norma coletiva da categoria ou por regulamentação específica do banco. Por isso, antes de assinar qualquer contrato, vale confirmar com o RH ou com um advogado qual é a margem exata aplicável ao seu caso.

E quando eu sou demitido? O que acontece com o consignado na rescisão
Aqui está o ponto que mais gera dúvida (e revolta) entre os trabalhadores. Ao ser demitido, o contrato de trabalho termina, mas a dívida do consignado continua existindo.
O banco não perde o direito de receber. Só que, sem salário mensal para descontar, ele passa a buscar o pagamento de outra forma: descontando diretamente das verbas rescisórias (saldo de salário, férias, 13º proporcional, aviso prévio, multa do FGTS etc.).
É exatamente nesse momento que muitos trabalhadores relatam ter recebido um valor bem menor do que esperavam, ou até “zerado”, por causa do desconto do consignado.
A empresa ou o banco podem descontar o saldo devedor de uma vez só?
Não. Mesmo na rescisão, existe um limite percentual para o desconto. O banco não pode simplesmente tomar 100% do seu acerto para quitar a dívida de uma só vez.
A Lei 10.820/2003 prevê que o desconto na rescisão também respeita um teto sobre o total das verbas devidas ao trabalhador. Se o saldo devedor for maior do que esse limite permite reter, o restante da dívida continua sendo cobrado normalmente, como uma dívida civil comum, e não pode ser simplesmente “tomado” do seu acerto de uma vez.
O que diz o TST sobre o desconto do consignado na rescisão
O Tribunal Superior do Trabalho (TST) já analisou esse tema em casos concretos. Em um julgamento envolvendo um eletricitário que aderiu a um Plano de Demissão Voluntária (PDV), o trabalhador teve R$ 22,8 mil descontados de uma rescisão de aproximadamente R$ 93,8 mil para quitar um empréstimo consignado.
O empregado alegou que o desconto deveria incidir apenas sobre as verbas estritamente contratuais, e não sobre o valor da indenização do PDV. O TST, porém, manteve o desconto de até 30% sobre o total das verbas rescisórias, incluindo a parcela do plano de demissão voluntária.
A relatora do caso, ministra Delaíde Miranda Arantes, explicou um ponto importante: para o TST, a dívida de empréstimo consignado é uma obrigação de natureza civil, e não trabalhista. Por isso, não se aplica a ela o limite do artigo 477, § 5º, da CLT (que restringe a compensação de dívidas trabalhistas a um mês de remuneração). Em vez disso, aplica-se o percentual específico previsto na Lei 10.820/2003.
Na prática, isso significa que o desconto de consignado pode incidir sobre o valor total das verbas rescisórias, inclusive indenizações de PDV, mas sempre respeitando o percentual máximo legal, nunca 100% do valor.

Pedi demissão e ainda devo o consignado. E agora?
A regra é a mesma, independentemente de quem tomou a iniciativa de encerrar o contrato: pedido de demissão, demissão sem justa causa, acordo entre as partes ou até demissão por justa causa.
O que muda é o valor das verbas rescisórias disponíveis para o desconto. Quem pede demissão, por exemplo, não recebe multa de 40% do FGTS nem pode sacar o FGTS livremente, o que reduz a “base” sobre a qual o consignado pode incidir.
Se o valor da rescisão não for suficiente para quitar toda a dívida, o saldo remanescente continua sendo cobrado depois, diretamente pelo banco, como qualquer outra dívida civil.
Posso autorizar um desconto acima do limite legal?
Aqui existe uma nuance importante. Em alguns casos, o TST já validou acordos individuais ou coletivos em que o trabalhador concorda expressamente com um desconto acima do limite padrão, principalmente quando isso está vinculado a um plano de demissão voluntária negociado com o sindicato.
Isso não significa que qualquer desconto abusivo seja automaticamente válido. A validade depende de haver autorização clara e específica, sem vício de vontade, e da existência de negociação coletiva ou instrumento formal por trás do acordo. Diante de qualquer dúvida, o ideal é não assinar nada na hora da rescisão sem antes consultar um advogado trabalhista.
Descontaram mais do que o permitido: o que fazer
Se você recebeu o Termo de Rescisão do Contrato de Trabalho (TRCT) e percebeu que o desconto do consignado ultrapassou o limite legal, alguns passos ajudam a resolver:
- Guarde todos os documentos: contrato do consignado, TRCT, holerites e extratos bancários.
- Calcule o percentual descontado sobre o total das verbas rescisórias, não apenas sobre uma parte delas.
- Peça explicações por escrito ao RH da empresa e ao banco responsável pelo empréstimo.
- Registre uma reclamação no Banco Central (Registrato/RDR) se o problema for com a instituição financeira.
- Procure um advogado trabalhista para avaliar se cabe ação pedindo a devolução do valor descontado indevidamente, com correção monetária e juros.
O consignado pode ser descontado do FGTS ou de verbas impenhoráveis?
Não. O FGTS tem natureza própria e não entra na base de desconto do consignado descontado pelo empregador na rescisão. Da mesma forma, verbas de caráter estritamente alimentar, como parte do salário mínimo necessário à subsistência do trabalhador, recebem proteção especial no ordenamento jurídico brasileiro.
Isso não quer dizer que o consignado nunca possa afetar essas verbas de forma indireta, mas reforça que o desconto tem limites e não pode simplesmente esvaziar todo o patrimônio rescisório do trabalhador.
Consignado x outros descontos no salário: qual a diferença
A CLT, no artigo 462, estabelece a regra geral: o empregador não pode descontar valores do salário do trabalhador, salvo em situações previstas em lei, em acordo coletivo ou mediante adiantamento salarial.
Existem descontos comuns no dia a dia, como vale-transporte, contribuição sindical (quando autorizada) e faltas não justificadas. Esses descontos seguem regras próprias, geralmente com limites bem mais baixos que o consignado.
O empréstimo consignado é diferente porque decorre de um contrato de crédito assinado voluntariamente pelo trabalhador junto a um banco ou instituição financeira, não é uma obrigação imposta pelo empregador. Por isso, ele segue a lógica própria da Lei 10.820/2003, com seu próprio teto de desconto, separado dos demais descontos trabalhistas.
Isso também explica por que, segundo o TST, a dívida do consignado é tratada como obrigação civil na hora da rescisão, e não como uma compensação de natureza trabalhista sujeita ao limite de um salário do artigo 477, § 5º, da CLT.
Exemplo prático: como fica o cálculo na rescisão
Imagine uma trabalhadora demitida sem justa causa, com direito a R$ 10 mil em verbas rescisórias (saldo de salário, férias, 13º proporcional, aviso prévio indenizado e multa do FGTS somados).
Ela tem um empréstimo consignado com saldo devedor de R$ 4,5 mil. Aplicando o limite de 30% sobre o total das verbas rescisórias:
- Limite máximo de desconto permitido: R$ 3.000 (30% de R$ 10.000);
- Ela recebe pelo menos R$ 7.000 líquidos de imediato;
- O saldo remanescente da dívida (R$ 1.500) continua sendo cobrado pelo banco, normalmente por meio de boleto ou débito em conta, já sem o desconto automático em folha.
Esse exemplo é simplificado e serve apenas para ilustrar a lógica do cálculo. Cada contrato pode ter cláusulas específicas, e o percentual exato pode variar conforme a instituição financeira e eventual negociação coletiva. Por isso, sempre vale a pena revisar o TRCT com atenção, ou pedir a análise de um advogado.
7 cuidados antes de contratar um consignado
- Confirme por escrito qual é o percentual exato de desconto autorizado.
- Pergunte, antes de assinar, o que acontece com as parcelas em caso de demissão.
- Evite comprometer o teto máximo da margem consignável logo de início; deixe uma folga.
- Leia a cláusula sobre desconto em rescisão, muitas vezes escrita em letras miúdas.
- Compare taxas entre bancos: nem todo consignado tem as mesmas condições.
- Se estiver em processo de negociação de PDV, avalie o impacto do consignado antes de assinar a adesão.
- Em caso de dúvida sobre o cálculo do desconto, peça a planilha detalhada ao RH ou ao banco.
Perguntas frequentes
O consignado pode consumir 100% da minha rescisão?
Não. A lei prevê um percentual máximo de desconto sobre as verbas rescisórias. Se o saldo devedor for maior do que esse limite, o restante continua sendo cobrado depois, mas não pode ser retido de uma só vez.
Fui demitido e o banco quer descontar tudo de uma vez. Isso é legal?
Não, salvo se você tiver autorizado expressamente esse desconto acima do padrão, em um contexto de negociação formal (como um PDV com participação do sindicato). Fora isso, prevalece o limite legal.
Se eu pedir demissão, perco a proteção do limite de desconto?
Não. O limite legal de desconto sobre as verbas rescisórias se aplica independentemente de quem tomou a iniciativa de encerrar o contrato de trabalho.
Posso contestar um desconto de consignado feito há mais de um ano?
Depende do prazo de prescrição trabalhista. Em regra, o trabalhador tem até dois anos após o fim do contrato para ajuizar ação, respeitados os últimos cinco anos de direitos. Um advogado trabalhista pode avaliar o prazo específico do seu caso.
A empresa pode se recusar a pagar minha rescisão por causa do consignado?
Não. A empresa é obrigada a pagar a rescisão nos prazos legais. O desconto do consignado deve respeitar o limite legal, mas não autoriza a empresa a reter o pagamento por completo ou atrasar o acerto.
O cartão consignado segue o mesmo limite do empréstimo consignado?
Não necessariamente. O cartão consignado (ou consignado-benefício) costuma ter um percentual próprio, somado ao limite do empréstimo tradicional. Por isso é importante verificar, no seu contrato específico, qual percentual foi autorizado para cada modalidade.
Quem decide o percentual descontado: o banco ou a empresa?
O percentual segue o que está previsto em lei e no contrato assinado entre o trabalhador e a instituição financeira. A empresa apenas operacionaliza o desconto em folha, repassando o valor ao banco, mas não pode, por conta própria, aumentar esse percentual sem autorização do trabalhador.
Precisa entender se o desconto do seu consignado foi correto?
Se você foi demitido e desconfia que o desconto do empréstimo consignado na sua rescisão ultrapassou o limite legal, não deixe essa dúvida passar. A equipe da RINA Advogados pode analisar o seu caso, verificar o cálculo do TRCT e orientar sobre a melhor forma de reaver valores descontados indevidamente. Entre em contato e faça uma avaliação do seu caso.
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