trabalhadora usando o próprio carro para fazer entregas a serviço da empresa

Uso do Carro Próprio a Serviço da Empresa: Reembolso de Quilometragem e Seus Direitos em 2026

🕒 Tempo estimado de leitura: 13 minutos

Vendedor externo, técnico de manutenção, representante comercial, cuidador que atende vários pacientes por dia, supervisor de obras. São várias as profissões em que a empresa pede, ou exige, que o trabalhador use o próprio carro para cumprir a rotina de trabalho.

O problema é que, na prática, muita empresa se esquece de um detalhe importante: quem roda quilômetros a serviço do patrão está gastando combustível, pneu, óleo e desgastando o próprio veículo, mesmo. Isso tem que ser pago. Se a sua empresa nunca te reembolsou um centavo por isso, este guia mostra exatamente o que diz a lei e quanto você pode ter direito a receber.

Sumário

trabalhadora usando o próprio carro para fazer entregas a serviço da empresa
Quem usa o carro próprio para trabalhar tem direito ao reembolso de quilometragem e das despesas do veículo.

A Empresa Pode Exigir que Eu Use Meu Carro para Trabalhar?

Sim, a empresa pode pedir que o carro particular seja usado no exercício da função, principalmente em cargos como vendas externas, entregas, assistência técnica, cuidados domiciliares ou fiscalização. Isso costuma constar no contrato de trabalho ou ser combinado verbalmente na contratação.

O que a empresa não pode fazer é usar seu carro de graça. Colocar o veículo à disposição do trabalho não é um favor: é uma ferramenta de trabalho, como um notebook ou uma ferramenta de obra, e todo custo dessa ferramenta precisa ser assumido por quem lucra com o serviço, ou seja, a empresa.

Por Que a Empresa É Obrigada a Pagar Pelo Uso do Seu Carro

A base disso é um princípio chamado alteridade, previsto no artigo 2º da CLT. Ele diz que o empregador assume os riscos da atividade econômica, não o empregado.

Na prática, isso significa que os custos necessários para a empresa funcionar, incluindo o deslocamento do trabalhador em serviço, são da empresa. Você não é sócio do negócio para bancar despesas dele com o seu bolso.

Some a isso o artigo 457, parágrafo 2º, da CLT, que trata das verbas pagas como reembolso de despesas, e o entendimento consolidado do Tribunal Superior do Trabalho de que o empregado que utiliza veículo particular a serviço do empregador tem direito à indenização pelos gastos suportados, mesmo quando não existe uma cláusula escrita específica sobre isso.

O Que Deve Ser Reembolsado: Combustível, Desgaste, Manutenção e Mais

Quando o carro particular é ferramenta de trabalho, entram na conta do reembolso, entre outros:

  • Combustível gasto nos trajetos a serviço da empresa (visitas a clientes, entregas, deslocamento entre unidades)
  • Desgaste do veículo (pneus, óleo, freios, embreagem) proporcional ao uso profissional
  • Manutenção preventiva e corretiva relacionada ao uso intenso a trabalho
  • Depreciação do valor do carro pelo uso e pela quilometragem rodada
  • Pedágios e estacionamentos pagos durante o trabalho

Não importa se a empresa chama esse pagamento de “ajuda de custo”, “auxílio deslocamento” ou “quilometragem”: o que importa é que o valor cubra, de fato, o gasto do trabalhador. Se a empresa simplesmente não paga nada, o trabalhador pode cobrar esse reembolso na Justiça do Trabalho, mesmo enquanto o contrato ainda está em vigor.

trabalhador abastecendo o carro particular usado a serviço da empresa
O combustível gasto em deslocamentos a trabalho deve ser reembolsado pela empresa.

Quanto Vale o Quilômetro Rodado a Serviço da Empresa

Não existe uma tabela única fixada em lei para o valor do quilômetro rodado no setor privado. Na prática, empresas que já organizam esse pagamento costumam usar valores entre R$ 0,60 e R$ 1,20 por quilômetro, dependendo do tipo de veículo, do combustível usado e da política interna.

Quando não existe um valor combinado e o caso vai para a Justiça, é comum que se recorra a uma perícia técnica ou a cálculos baseados em tabelas usadas pela própria categoria (como as adotadas por sindicatos de representantes comerciais) para estimar o custo real por quilômetro, somando combustível, manutenção e depreciação.

Um exemplo prático: imagine um auxiliar de logística que passou três anos fazendo entregas com o carro próprio, sem nunca receber reembolso, rodando em média 45 mil quilômetros nesse período. Considerando um valor de referência de R$ 0,62 por quilômetro, isso representa algo em torno de R$ 27 mil em reembolso retroativo, sem contar juros e correção monetária.

Ajuda de Custo Fixa: Quando Ela Vira Salário Disfarçado

Aqui está um detalhe que pouca gente conhece: se a empresa paga um valor fixo mensal, sem relação com a quilometragem rodada ou os gastos comprovados, e esse valor se repete todo mês como se fosse parte do pagamento normal, ele pode ser interpretado como salário-utilidade, e não como simples reembolso.

Isso muda tudo:

  • Se for reembolso de despesa comprovada, não integra o salário, não incide INSS, FGTS ou Imposto de Renda sobre ele.
  • Se for pago de forma fixa e habitual, sem vínculo com gasto real, pode ser considerado parte da remuneração, devendo refletir em 13º salário, férias, FGTS e verbas rescisórias.

Ou seja: se a empresa te paga uma “ajuda de custo” fixa de R$ 500 por mês há anos, sem pedir nenhum comprovante, e nunca incluiu esse valor no cálculo do seu 13º ou das suas férias, pode haver diferenças a receber.

Seguro do Carro: Quem Deve Pagar?

Não existe uma lei específica obrigando a empresa a pagar o seguro do carro particular do funcionário. Mas, se a empresa exige o uso do veículo como condição de trabalho e o risco de acidente aumenta justamente por causa da rotina profissional (mais quilômetros rodados, trajetos desconhecidos, horários de pico), é razoável, e defensável judicialmente, cobrar que a empresa custeie ao menos parte do seguro ou compense esse risco no valor pago pela quilometragem.

O ideal é que isso fique combinado por escrito, seja em contrato, aditivo ou política interna. Na ausência de acordo, o trabalhador pode discutir esse custo dentro do pedido geral de reembolso de despesas.

mecânico verificando o motor de um carro usado para trabalho
O desgaste do veículo com o uso profissional também deve ser considerado no valor do reembolso.

Bati o Carro a Serviço da Empresa: Quem Paga o Conserto?

Se você sofreu um acidente dirigindo o próprio carro em serviço, sem ter agido com imprudência grave (dirigir embriagado, em excesso de velocidade ou fora do trajeto de trabalho), a empresa não pode simplesmente empurrar o prejuízo para você.

Pelo mesmo princípio da alteridade explicado acima, quem assume o risco da atividade é a empresa. Se o uso do carro foi determinado por ela, os custos do acidente ocorrido durante o trabalho, ao menos na parcela relativa ao uso profissional, podem ser cobrados da empresa, inclusive por via judicial.

Detalhamos esse tema com mais profundidade, incluindo quando o desconto do conserto é ilegal, no artigo “Bati o Carro a Serviço da Empresa: Quem Paga o Conserto, o Combustível e o Seguro?”, publicado aqui no blog.

Motorista e Entregador de Aplicativo: a Regra É Diferente

Vale um esclarecimento importante: motoristas de aplicativo (como Uber e 99) e entregadores de plataformas digitais que usam o próprio veículo como forma de trabalho autônomo, sem vínculo de emprego reconhecido, não estão automaticamente protegidos pelas regras explicadas neste artigo.

Esse é um debate diferente, que envolve discutir se existe ou não vínculo empregatício com a plataforma, tema que ainda está sendo julgado pelo Supremo Tribunal Federal. Já quem é registrado com carteira assinada (CLT) e usa o carro particular por exigência do empregador, mesmo sem trabalhar para aplicativos, tem o direito ao reembolso garantido pelas regras tradicionais da CLT explicadas aqui.

Posso Recusar Usar Meu Carro Para Trabalhar?

Depende do momento. Se o uso do carro particular já estava previsto desde a contratação, como parte natural da função (por exemplo, um cargo de vendedor externo), recusar pode ser considerado descumprimento contratual.

Mas se a exigência é nova, ou seja, surgiu depois de você já estar contratado para uma função que não previa isso, essa mudança pode configurar alteração contratual lesiva, proibida pelo artigo 468 da CLT. Nesse caso, você pode negar o uso do carro sem que isso vire justa causa, e ainda questionar a mudança na Justiça do Trabalho.

Como Calcular Quanto Você Tem a Receber

Para ter uma ideia do valor a que pode ter direito, reúna estas informações:

  1. Tempo aproximado em que usa (ou usou) o carro particular a serviço da empresa.
  2. Estimativa de quilômetros rodados por semana ou por mês em atividade profissional (rotas de entrega, visitas, deslocamentos entre postos de trabalho).
  3. Valor médio do combustível no período e o consumo do seu veículo (km por litro).
  4. Gastos com manutenção que possam ser atribuídos ao uso profissional (trocas de óleo mais frequentes, pneus, revisões).
  5. Qualquer valor que a empresa já tenha pago a esse título, para abater do total devido.

Com esses dados em mãos, um advogado trabalhista consegue estimar o valor da diferença e avaliar se vale a pena reunir provas (fotos, comprovantes de abastecimento, mensagens combinando o uso do carro, relatórios de visita) para uma cobrança judicial.

pessoas assinando documento de seguro de veículo
Discutir por escrito quem paga o seguro do carro usado a serviço da empresa evita problemas futuros.

A Convenção Coletiva da Sua Categoria Pode Já Prever Esse Valor

Antes de qualquer coisa, vale checar a convenção coletiva de trabalho (CCT) da categoria. Muitos sindicatos, principalmente de representantes comerciais, vendedores e trabalhadores da área de saúde que atendem pacientes em domicílio, já negociam cláusulas específicas fixando um valor mínimo por quilômetro rodado ou um percentual de ajuda de custo para quem usa veículo próprio.

Quando existe uma cláusula assim, ela vira o piso mínimo que a empresa deve respeitar. Se o valor pago for menor do que o previsto na convenção, a diferença pode ser cobrada normalmente, inclusive de forma retroativa.

“Já Está Incluso no Salário”: Isso Vale?

É comum a empresa argumentar que o salário combinado na contratação “já leva em conta” o uso do carro. Esse argumento, sozinho, não tem força jurídica se não existir nada por escrito nesse sentido, e se o valor pago for equivalente ao de outros profissionais da mesma função que não usam veículo próprio.

Para esse argumento ter validade, a empresa precisaria comprovar que o salário foi definido, desde o início, com um valor superior justamente para compensar o desgaste do veículo, algo raro na prática e que, mesmo quando existe, costuma ficar muito abaixo do custo real de quilometragem, combustível e depreciação ao longo dos anos.

Nunca Recebi Nada: O Que Fazer Agora

Se você usa ou já usou o carro próprio para trabalhar e nunca recebeu nenhum reembolso, alguns passos ajudam a proteger seus direitos:

  • Guarde comprovantes de abastecimento e de manutenção do período em que trabalhou.
  • Salve mensagens, e-mails ou orientações que comprovem que a empresa exigia o uso do carro.
  • Anote rotas, visitas ou entregas feitas, mesmo que de forma simples, em uma agenda ou aplicativo.
  • Fique atento ao prazo prescricional: na Justiça do Trabalho, é possível cobrar os últimos 5 anos de diferenças, desde que a ação seja ajuizada em até 2 anos após o fim do contrato.
  • Procure um advogado trabalhista para avaliar seu caso antes de tomar qualquer decisão, inclusive se ainda estiver empregado.

Perguntas Frequentes Sobre Uso do Carro Próprio no Trabalho

A empresa é obrigada a pagar quilometragem mesmo sem cláusula no contrato?

Sim. Mesmo sem previsão expressa em contrato, a jurisprudência trabalhista reconhece o direito ao reembolso quando fica comprovado que o carro particular era usado como ferramenta de trabalho por exigência ou benefício direto da empresa.

Esse reembolso conta como salário para fins de INSS e FGTS?

Não, desde que seja um reembolso de despesa comprovada e proporcional ao uso real. Quando pago de forma fixa e sem relação com o gasto, pode ser reclassificado como salário-utilidade, e aí sim passa a integrar a base de cálculo de FGTS, 13º e férias.

Posso cobrar reembolso mesmo ainda trabalhando na empresa?

Sim. A cobrança pode ser feita durante o contrato de trabalho, embora, na prática, muitos trabalhadores prefiram esperar o fim do vínculo para evitar desgaste. A decisão de quando agir deve considerar cada situação com apoio jurídico.

E se a empresa me deu um cartão de combustível, isso já resolve tudo?

Ajuda, mas não necessariamente cobre todos os custos. O cartão de combustível costuma cobrir apenas o abastecimento, deixando de fora desgaste, manutenção, depreciação e seguro, itens que também podem ser cobrados.

Quanto tempo tenho para reclamar valores não pagos no passado?

O prazo prescricional trabalhista permite cobrar diferenças dos últimos 5 anos, desde que a ação seja ajuizada em até 2 anos após o término do contrato de trabalho.

Isso vale para quem trabalha com moto própria também?

Sim, o mesmo raciocínio se aplica a motociclistas que usam o veículo particular a serviço da empresa, como motoboys registrados em CLT, guardadas as proporções de custo de combustível e manutenção do veículo.

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